Interview with Lena Guimarães - Salinas (MG) - Brazil

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Meus caros leitores seguem abaixo as palavras da artista Lena Guimarães, uma pessoa encantadora que eu tive o prazer de conhecer e de trabalhar. Sabia que a idéia de compartilhar suas idéias seria muito legal, porque essa criatura é de uma infinita sensibilidade e sabedoria. Contaminem-se!


“teus olhos tingem os meus cabelos de sonho e deitam uma ternura sobre o meu corpo.”

(Pacto Sob Outono, Lena Guimarães)


Com vocês Lena Guimarães!


(((((•))))) Minha querida Lena. Obrigado por aceitar meu convite. Queria começar sabendo se você já viveu em outro lugar além de Salinas (MG)?


Sim, meu querido, em Montes Claros e Belo Horizonte, é ... três anos aproximadamente em cada uma delas. Outros lugares, Rio de Janeiro um tempinho e sul da Bahia um pouco mais. Na verdade tenho mais tempo de “Vale do Jequi”, do que de todas estas cidades juntas rs...


(((((•))))) Por isso essa doçura de ser... Ah! Inesquecível Vale do Jequitinhonha! ... Você é atriz, dançarina, escritora, ou seja uma artista multifacetada. Dentre as linguagens que você atua, existe uma que você tem certa preferência?


Cada uma com seu sabor, quem sabe com a mesma intensidade e outros mecanismos. Amo dançar, sem estilo definido. Quando danço, meu corpo se transforma em lua, bicho, árvore, fico cheia de percepção sem nenhum esforço para isto. Escrever é necessário demais. Se não escrevo, afogo-me. De outra forma vejo poesia em tudo,

mo amor, na dor e toda esta antagonia perceptível tão inerente à vida. Quanto a ser atriz é uma forma argilosa de se fazer ouvir, uma artimanha para a transformação.


(((((•))))) Há quantos anos você atua como artista?


Dancei no circo quando tinha 6 anos de idade, um circo lindo, conhecido popularmente como Circo Vagabundo, neste período já falava “versos” na escola. Mas, conscientemente há mais de 20 anos, contando que meu primeiro espetáculo com direito a diretor, se deu em 1984. Claro, com varias interrupções. Meu primeiro livro eu comecei a escrever em 1990 e fui publicá-lo em 1995


(((((•))))) Já teve outra profissão ou já pensou em ter outra profissão?


Sim, algumas, paralelas a arte. Fui escrevente em Cartório, hum...lecionei para o Pré escolar, lecionei Literatura, todas estas quase intimadas, então,...optei pela vida de artista.


(((((•))))) Como ganhamos com esta sua escolha. Existem outros artistas na sua família?


Minha tia( in memorian) era poetisa. Carlita Guimarães. Meu irmão Argeu é poeta nas horas vagas e tem emprego público, não necessariamente nesta ordem. E meu marido Narciso Durães, profissionalmente.


(((((•))))) Qual a sua formação e o que mais influencia seu trabalho?


Na minha profissão sou autodidata. Com alguns cursos profissionalizantes. Bem, o fluxo da vida me influencia,  principalmente os seres humanos..


(((((•))))) Onde você vai buscar inspiração para suas criações?


Nas massas e dentro de mim, nos recôncavos. Pensando de outro jeito, não busco inspiração, é um processo intrínseco. Sou inspirada pela dualidade.,., mas há outro lugar que vou quando estou criando, que não habita necessariamente na materialidade...Neste lugar adequo as minhas criações.


(((((•))))) Como são seus processos criativos?


Se dão de maneiras tão diferentes, muitas vezes, são signos que extraio de vivências e  dou a estes percursos, mutações. Percebo sempre o movimento inserido a eles, coloco este movimento em expressões, colo cada pedaço como um mosaico, surgem as cores, formas, ritmos,... daí, as escolho. Chega um momento que algo fica pré estabelecido, então acontece o fato, quando o penso definido...ele vai mudando ganhando vida a cada estação. São realmente processos... RSS


(((((•))))) Quais são os seus artistas prediletos?


Ichii Maria, de uma forma geral... Na poesia a exploração geográfica e profunda do Neruda, o ritmo de Ferreira Gular, a divergência de  Fernando Pessoa, a irreverência e profundidade de Narciso Durães. Romance: o movimento de Gabriel Garcia Marques, o simbolismo de Marcel Proust, a intimidade de Clarice Lispector, as mil faces de Guimarães Rosa. Em outras linguagens, Osho. No teatro, Fernandinha Torres. Corpo- Dança; Chaplin, Débora Colcker,  Clênio Magalhães. O que “mexe” muito comigo é ouvir Bárbara Streisand cantando Woman in Love. Alguns artistas preferidos são Jackson Antunes em personagens sertanejos e Nick Nolte.


(((((•))))) Caramba que responsa você me conferiu agora rs. Estou amando estar em contato com sua arte também. Passo horas ruminando certas frases e palavras do livro que você me deu. Você é uma grande artista ... uma grande mulher. Como você administra o ENTRE que articula a sua vida com a sua arte?


Com muitas modificações,...é que nem sempre administro bem. Parece-me que o único jeito mesmo, é ficando perto o mais perto de mim. Converso muito com a vida.

Quanto a falar de você...um belo motivo: Você é um grande artista!


(((((•))))) Eu tive o privilégio de dirigir o seu espetáculo PACTO que muito me comoveu e acrescentou, mas não tive contato com outras obras suas. Seus trabalhos têm sempre esta característica do risco, do visceral, da emoção?


Então, foi  e é um presente ter você no Pacto e na minha vida. Meus trabalhos têm sempre tem estas características, o Pacto simboliza mais este risco, pelo elemento caco de vidro, apertando sob os meus pés. Os outros também, Pelos Campos de Alvarrã, traz com muita força o cíclico, em No Jequi tem Sal, fiz uma tentativa de cordel para contar um pouco a história de Salinas, é um protesto de rimas doces, rss. Tenho um livro infantil, Sempre Será Uma vez, que mostra o movimento com propósito de abordagens em várias disciplinas escolares, dentro deste público alvo e que foi muito bem aproveitado na pedagogia. O livro em revisão, inédito, Tocha sobre um labirinto em trevas, é totalmente visceral, a sol aberto.




(((((•))))) O inesquecível Vale do Jequitinhonha! Fale um pouco deste lugar que é o seu lugar e de tantos outros talentos da cultura mineira.


O vale é um camaleão. Encantado nas cordas da viola de Pereira, explorado na voz de Luciano Silveira, moldado nas mãos de Ulisses, Lira, explosivo no tambor do Mestre Antonio, autêntico como um pé de aroeira. Tem gente de todo jeito, é “um brasilzim, um brasilzão”, sempre em pauta na Assembléia Legislativa...Um curral eleitoral, tomando consciência que pode ser outra coisa. Por exemplo: Dono do seu próprio lugar. É Lindo como gota de orvalho no seio de atriz texana. Ainda se vê penitências por aqui ... é para chover, quando o sol escalda, isto misturado a odores inimagináveis, ... um dia não faz muito tempo, enquanto a penitencia passava um menino gritava entusiasmado, “ derrubei meus inimigos no computador ( È uma mistura bem fiel de mastruz, verminose com o ultimo lançamento de perfume do Boticário, de feira farta e fome com o último desfile de uma loja recém inaugurada com pretensão a Marisa..”de mulher pra mulher’..Marisa)  Quero nesta mistura mostrar a originalidade e a picaretagem do Vale!  Só não há miséria. É um lugar que eu amo!


(((((•))))) O que você está aprontando agora?


Rss, nem te conto!  Mas por lado estou fazendo revisão do Tocha sobre um labirinto em trevas, poesia e do romance um Rosto Pintado no Tempo, ah, fechando a prestação de contas do Pacto- Projeto -Do jequi ao horizonte. E pensando em comer amoras,” o pé ta carregado”


(((((•))))) Nossa você falando de amoras, parece que estou vendo aquele quintal maravilhoso da sua casa. Estou ansioso pelos novos trabalhos. Lena qual a mensagem que você daria ao artista que está nos primeiros passos da sua jornada?


Busque saber cada dia quem você é..assim fica mais fácil saber o que você quer... Uma vez sabendo...siga!

(((((•))))) kkkkkkk Que delícia! Você é incrível! Surpreende me a cada dia. Minha querida Lena, empolguei kkkkkkkkk se eu não parasse montaríamos outro livro com sua biografia RSS. Muito obrigado pelas tão belas palavras. Pelas dicas de inspiração com seus artistas favoritos. Pela paz que você nos transmite. Por permitir que eu publicasse um poema seu, que teremos o prazer de ler agora. Enfim por compartilhar conosco sua sensibilidade que contamina nosso estilo de viver.




Meu lindo, foi um prazer. Falar com você é muito bom, saudades!

Este poema, Saudades, eu fiz para o meu pai.

Assassinado em março de 2000.

...é...foi a queima de arquivo... meu pai, um homem simples...

O grande amor da minha vida...


Segundo o inquérito,parecia saber de “algo...”

e iria revelar...


Assim que ele  se foi ficou tão vivo que comecei a procurá-lo pelas ruas...


Depois de um tempo... o poema.


SAUDADES

Por onde andas?

As flores amarelas voltaram e tu não estás.

Meu corpo procura pelas ruas teu jeito

E só encontro ondas sobre o meu silêncio.

Por que partistes assim?

Pela trilha destas lágrimas segue o meu coração e o amor toca os cantos do mundo tentando trazer-te.

Por onde andas?

A porta da madrugada se abre

E tu não estás.

Entra meu amor,

Desce do céu e cobre minha solidão

Com a tua voz...

Permite que esta saudade debruçada

De estrelas murmure o teu nome.

Solvo desta dor uma luz

Para o meu caminho

E encontro neste amor a própria explicação...

As flores amarelas voltaram

E tu te encontras em paz...

***



(((((•)))))Aff!!!!!!! É difícil conter as lágrimas. Você é linda demais. E para quem quiser saber mais sobre você, adquirir um livro, trocar idéias?


Claro, será um prazer: mahaguimp@yahoo.com.br msn: leninhaguim@hotmail.com

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Que maravilha. Que privilégio. Fiquem de olho que em Janeiro vem mais gente grande contando um pouco sobre suas vidas...

Até a próxima!!

5 comentários:

Edu O. disse...

Estas entrevistas são ótimas!! Grande idéia e ação! amo você, meu amigo.

Rosa Fernandes disse...

Linda e emocionante essa entrevista.... Lena é maravilhosa, tive a oportunidade de fazer uma oficina com ela poucos dias...mas o suficiente para respeitar e adimirar o seu lindo trabalho.

Desejo muito Sucesso Lena!

Edu O. disse...

Ohhh pai, não procurou direito não ne, fio. Já ta lá na lista há muitho tempo!!!!!!!!

Te amo!!!!! Felicidade e sucesso, sempre!!!

Anninha Soares disse...

A Lena é mesmo uma artista multifacetada, encantadora! Fiz uma oficina de expressão corporal com ela, no Festivale de Salinas. Foi somente uma semana, mas foi tempo suficiente para admirá-la, pela sua leveza e verdade, em especial no corpo, nos gestos...

Petronio Braz disse...

“Benditas as mãos, que por vestirem o nada, tocaram as nuvens”. A poesia é a mais perfeita força de expressão da sabedoria humana. É ela a medida das palavras, razão porque está representada, ao lado dos símbolos matemáticos, entre as sete lâmpadas da Capela de Pitágoras, na velha Grécia. Embora essa Capela exista apenas na imaginação criadora do emérito prof. David Eugene Smith, da Universidade de Colúmbia. As lâmpadas, em seu conjunto, sugerem o próprio sentido da vida.
Desde Schopenhauer, o Mundo é entendido como uma representação. A nossa vontade existe e se manifesta de acordo com a nossa própria visão das coisas. O bem existe na medida de nossa bondade; o amor existe na medida do amor que transparece de nós mesmos. A poesia existe na medida em que é sentida. Tudo que existe é produto de nossa visão e tem em nós mesmos a condição de sua existência.
Depois de “Pacto sob Outono”, a poetisa Lena Guimarães fez chegar às minhas mãos, com dedicatória: “Tocha sobre um Labirinto”.
Ela abre o seu novo livro com uma verdade insofismável, levando-nos a reconhecer que a poesia nasce dos pedaços de nossos sentimentos. Será a poesia filha da Terra, nascida em uma manhã de Arco-íris? Desde os gregos os poetas são inspirados pelas Musas, não apenas por uma, mas por três: Euterpe, Thália e Erato.
A poesia de Lana Guimarães é sonho, amor e dor. Sonho que ela retira do sêmen do tempo; amor que nasce com os ipês floridos, a torna insana e se desfaz nas pedras gélidas da paixão; dor que ela sente ou finge sentir.
A poesia de Lena Guimarães é imaterial. Sua mensagem poética é metafísica, e nos conduz a uma compreensão suprassensível da realidade da vida, com instantes emocionais de lirismo, de sentimentos de amor. Sua leitura é eufônica como convem à boa poesia, agradável aos ouvidos, ultrapassando o esgotado movimento modernista.
Numa fusão multifacetária de coisas e pessoas, de medos e dores, de flores e sentimentos, de amores e dissabores, de encontros e desencontros, em parâmetros vivenciais Lena Guimarães nos dá um sentido da vida.

Petrônio Braz