Tônica

Tonifique
Fique em casa

Tato


A sola dos meus pés reclamam meu peso.
Para onde vamos?
Formo ângulos com braços e pernas.

Derreto-me.
Desafio-me.
Ensaio a queda.

Me vejo nos olhos alheios.
Admiro-os e me sinto igual na diferença.
Valorizo o tempo.

Se toca.
Eu toco os outros.
Os outros me tocam.
Então me toco.

Ata-te.
Ata-me.

Vamos fluir.

Tarde


Falta ar.
Não compreendo a vida.
Não entendo.
Amor exclusivo focado.
Paixão inclusiva generosa.
Possível limitado.
Impossível utópico.
Aflições.
Amadureço com olhar triste e assustado.
Assustador.
Olho meu reflexo e vejo o mundo.
Ocupo muito espaço.
Estilhaço.
Cansaço.
Gratidão Deus. Muito linda sua criação.
Parabéns mesmo.
Precisando de algo estou aqui.
Sigo buscando.
Sinapses.
Instinto e memória.
Paciência.
Até que gosto dessa dor.
Quando não me batem danço.
Me livrei da tortura das cócegas.
Ainda não dos pensamentos.
Não te esqueço.
Eu não quero?
Aceito.
Quase morto te amo.
Morto de chorar.
Me humilho.
Mas coitados deles que acreditam que vivem.
Imito moléculas e crio.
Mostro-lhes o fim.
O nada e efêmero envoltórios.



Auto-discussão no quintal


Você morde os pés dos dentes
Eu beijo o pescoço da língua
Você disfarça em panos quentes
Eu transformo as dores em íngua

Você sublima amando álcool
Eu furo a onda pelo limão
Você vaga querendo fumaça
Eu salto estrelas pelo pulmão

Você se afoga em dívidas
Eu desconto sendo nosso amor
Você descansa, deixa dúvidas

Eu sinto
Você os outros
Eu você

(CM)

O leite derramado


Espalhou-se por todo o corpo
Até cheiro entrou pelo nariz
Encharcando o meu calção torto
Convenceu do cabelo à raiz

Por que o leite chegou até mim?
Era para derramar somente?
Se era para me deixar assim
Por que teria que ser tão quente?

Deste leite não quero o pingo
Mesmo tendo mais leite na caixa
Não limpo, não esqueço, não vingo

Do leite não quero a distância
Mesmo tendo mais leite na vaca
Quero sua outra deslumbrancia.
(CM)

Leite de pedra


Se acolhe.
Obedece o ronco da sua intuição.
Se recolhe.
Poupa a vaca, a cabra, a porca e a galinha.
Se aguarda.
Extrai da efêmera vontade a seiva ampliada.
Se observa.
Relembra as primeiras fases dos quintais da sua vida.
Se pune.
Enfia o dedo sujo nos olhos e arranca a casca das suas feridas.
Se aconselha.
Vença o medo de si mesmo, dia a dia, combata os açúcares distratores!
Se esforça.
Espreme o peito, os olhos, o limão, o côco e a medula.
Se nutre.
Prepara bolo, pão, salada, desejo e cuscuz bem feito.
Se engole.
Nada contra maré sem enjôo.
Se prepara.
Estamina para o vôo além.
Se perde.
Descansa na paz do vento nos cabelos.
Se nega.
Verte a dúvida para a goela dos espelhos.
Se mistura.
Quente como café nas férias de janeiro.
Se expõe.
Serve chocolate aos espiões.
Se gela.
Põe canela nas memórias antecipadamente esperadas.
Se oxigena.
Morno como o ritmo do colo apaixonado.
Se mata.
Sova o creme nata da sobra cinética.
Se ilude.
Passa no biscoito, na pele, na pata.
Se arrisca.
Desliza na superfície espinhosa da hipocrisia.
Se indaga.
Vale o sangue pelo perfume da rosa?
Se valoriza.
Com os pulmões olentes inclina-se aos calmos.
Se exige.
Pisa na areia quente pelando dos egos e seus tons.
Se guia.
Pisa na bosta com sapatos e descalço suspeita dos poderes motores.
Se entristece.
Com amor próprio ostentado.
Se corrói.
Mastiga as fibras da certeza da natureza espelhante.
Se perdoa.
Degustando ser não tendo.
Se cura.
Alinhavando esperança de par em par.
Se lava.
Com lágrimas douradas de um presente divino.
Se sublima.
Com a certeza de ser errante.
Se aceita.
Na vibração de uma foto.
Se acalma.
O filme é uma linda semana.

(CM)