Euphorico 2010

Euphorico: a page aberta = ?, C, R

Neste mês de Outubro tive o privilégio de conviver com os Grupos Artmacadam e Grupo X de Improvisação em Dança, idealizadores do evento em epígrafe, do qual sou amigo, admirador e participante convidado há quatro anos.

Este texto trata da minha inquietação pessoal sobre o projeto, na tentativa de organizar meus pensamentos acerca do que desenvolvemos e nesta busca compartilhar com o maior número de leitores possível, idéias inovadoras para o campo da dança e dos encontros.
O Euphorico vem se tornando a cada ano um encontro de pessoas que se gostam, amantes da arte contemporânea, improvisadores, aventureiros, trabalhadores, curiosos em busca de uma autenticidade e autonomia artística. É um espaço necessário na contemporaneidade onde se discute liberdade, acessibilidade, verdade, sensibilidade e espontaneidade. É um evento destinado a toda família, a toda comunidade, seja como ouvintes, expectadores ou participantes. A cada ano o evento adota sistemas diferenciados de pesquisa, que norteiam os anseios criativos de cada componente e conduzem a produção das obras. As obras são criadas e discutidas num período de aproximadamente quinze dias, entre intervenções, apresentações, work shops, produção de vídeos, produção de fotografias, pinturas, culinária, festas, passeios, bate papos, entrevistas e produção de textos. O evento se sustenta com recursos de cada participante, com auxílios das instituições apoiadoras e caminha para a captação de recursos para otimização das suas atividades. Envolve teatros, escolas, conservatórios, grupos artísticos, espaços públicos, universidades, bares, casas e restaurantes. Aproximadamente trinta pessoas estão diretamente ligadas ao evento, considerando administradores, técnicos e familiares dos participantes que estão sempre juntos e atuantes durante as atividades. Ocorre todo ano entre os meses de setembro e outubro, sendo um ano no Brasil e outro na França.
Nesta mais recente edição, denominada EUPHORICO: a page aberta, deparamo-nos com um corpo aberto, acessível, disponível a contar estórias. Um corpo atento e pronto como página em branco, no instante em que se coloca a ponta do lápis ou os dedos no teclado. Cada participante recebeu a última frase de um micro conto anterior e a partir desta frase contava sua história. Estes micros contos foram reunidos, misturados, redistribuídos, experimentados, discutidos, traduzidos, coreografados, musicados, iluminados, fotografados, vividos, foram os estimuladores de todo o processo de trocas que se estabeleceram diariamente.
O contexto no qual a experiência Euphorico se dá é de um grande engarrafamento. As sutilezas dos encontros e desencontros esmiuçam-se entre as diferenças. Nosso desafio é pontuar esses encontros, colorir os contatos, destacar as interações, valorizar as colaborações, enriquecer o humano de quem nos rodeia. O público é convidado a sair de sua condição de expectador passivo para uma posição de elemento compositor através de jogos e situações instaladas no ato das apresentações.
Este engarrafamento estético, artístico e ideológico de modo espontâneo e entrópico leva à cena o diferencial, o inusitado, o aleatório, a colagem, o descartável, o congestionamento, a rima, a seleção, a dúvida, o caos. Estas informações, que fazem parte da vida contemporânea sejam na família, na internet, na escola, no shopping, no templo, no transito ou no show do artista predileto, de repente encontram-se incorporadas através da dança.
Definir este evento não é tarefa fácil. O Euphorico que já dura seis anos a cada ano tem apontado para horizontes cada vez mais amplos. Poderia ser definido como um encontro de improvisadores, mas existe um algo a mais relacionado com a vontade, necessidade e voluntariedade que juntos situam-nos em um ambiente seguro, mas ainda nos parece indefinido. E para mim não há mesmo nada de definitivo nestes encontros.
Essa indefinição convive com todos os participantes e para mim representa o maior diferencial do projeto. Não estamos habituados a sistemas abertos. Compramos os produtos inteiros e não suas peças para montá-los, logo ao viver um processo sentimo-nos deslocados e sem saber por onde começar se nos faltam um manual de instruções.
Durante todo o processo discutimos a individualidade de cada componente, seus interesses, suas culturas e suas traduções do Projeto Euphorico. Essa discussão é uma das alimentadoras desta indefinição que a partir de agora gostaria de chamar de (in) definição como utilizado por vários autores ao redor do mundo. Neste caso, utilizo o (in) representando a individualidade e a definição representando as idéias. Esta (in)definição do Projeto Euphorico, em questão, apresenta-se babélica e fértil. Babélica pelo fato de dar início a mitos da dança que se personificam no desconhecido e principalmente fértil, por exibir uma impossibilidade de completude que se caracteriza a contemporaneidade, desencadeando um ciclo humorado vicioso de questões filosóficas, onde ego, intuição e subjetividade brigam por espaço e direito de voz.
Para não me situar em um estado de libertinagem, precisei instalar minhas atitudes em ações sistêmicas que iam se fortalecendo a cada encontro, onde os participantes já demonstravam suas fragilidades e seus vigores de maneira mais explícita, colorindo o jogo das relações.
Utilizarei a TGS (teoria geral dos sistemas) criada nos estudos do biólogo austríaco Ludwig Von Bertalanffy 1950 para expor de maneira objetiva o que representou para mim esta experiência “a page aberta”. A TGS propõe formulações conceituais que possam criar condições de aplicação nos fatos empíricos. Seus principais pressupostos são: integração, sistematização, socialização, cientismo e educação. Seu caráter neutro é incrível e de fundamental importância para sintetizar sistemas complexos como o Euphorico.
Segundo a TGS, os sistemas dividem-se entre físicos ou concretos, abstratos ou conceituais, abertos ou fechados. O Projeto Euphorico é um projeto físico e concreto quando materializa suas ações em textos, fotos, vídeos ou mesmo na memória corporal dos participantes. É um projeto abstrato e conceitual, pois articula conceitos, hipóteses e idéias entre diferentes pessoas de diferentes partes do mundo. É um sistema fechado, pois possui em sua raiz uma organização composta de componentes devida e burocraticamente perfilados, mas ao mesmo é um sistema aberto, pois apresenta relações de intercâmbio com artistas convidados, com o público, com os organizadores e com possibilidades de transformações futuras. Como podemos notar o trabalho de improvisação e experimentação artística do projeto Euphorico, torna-se um produto de difícil acesso, devido justamente ao seu caráter de extrema complexidade, extraordinariamente perceptível no dia a dia das pessoas.
Por que é necessário estar em contato com projetos desta poesia e complexidade? Por que é necessário que eventos como este atravessem as grossas fronteiras escolares do aprendizado automático e de fins capitalistas?
Como o Projeto Euphorico, o cotidiano das pessoas é afetado pelas variáveis externas. O ambiente em que vivemos é dotado de infinitos sistemas que se entrecruzam a todo instante, gerando interseções tão complexas que fogem das nossas capacidades cognitivas. Por mais exata que seja uma medida tomada no dia a dia, a sua probabilidade de variação é vigorosa e precisamos estar aptos a escutar e assimilar o máximo destas informações para vivermos tranqüila e intensamente nossas experiências. Ao entrar em contato com o Projeto Euphorico, onde a improvisação, a decodificação de movimentos e sons, a naturalidade expressiva, o humor, o toque, a acessibilidade, a abertura, a sensibilidade, o jogo e o acaso das idéias fundem-se em vivências, o envolvido adquire uma nova forma de encarar o desconhecido. Ele descobre que por mais livre que se sinta realizando tais atividades, haverá sempre regras fundamentais que nos regem a todo instante e que até o caos obedece uma regra sistêmica para tornar-se caos.
A importância destas práticas “euphoricas” encontra-se justamente no amadurecimento das iniciativas, das escolhas e da sensatez. O juízo entre o certo e o errado quando transformado em ficção ganha certa leveza e caráter experimental, pontuando no corpo e no ambiente em que o cerca as percepções das transformações causadas por tais ações. É nos instantes entre o agir e reagir que aprendemos a nos conhecer e a conhecer o espaço que nos rodeia. As regras estão espalhadas no entorno e é importante desenvolver a sensibilidade perceptiva destes rigores para podermos circular pelos caminhos escolhidos sem desrespeitar nossos planos e ambientes alheios. Estas práticas nos ensinam a quebrar o cotidiano sem deixar cicatrizes, minha maior dificuldade como artista. Com o Euphorico aprendo a dosar a força para entrar e sair das circunstâncias. Aprendo a reconhecer as regras impostas naturalmente pelo outro e descobrir o melhor momento e a melhor forma de quebrá-las ou assimilá-las. Aprendo a invadir o cotidiano sem culpa como quem quebra os silêncios dos não-lugares quando anunciam os horários da próxima partida, as promoções ou as últimas notícias do jornal. Interromper temporariamente como quem oferece uma bebida e experimenta o instante de aguardar a resposta. É neste pequeno instante que se revela o outro pelo qual você se interessa.
Escutar. Esta é uma regra presente em todos os sistemas dos “euphoricos”. Somente pela escuta podemos reconhecer o outro. Escutar não somente pelo sentido auditivo, mas uma escuta ampla que abre os poros e os canais perceptivos de todo o corpo. Uma escuta corporal onde a velocidade, a temperatura, a textura, dentre outras características do movimento que lhe aborda, dão-nos pistas rápidas e prováveis de reação. Uma escuta essencial para que possamos realizar as melhores escolhas. Nem sempre um convite é a melhor oportunidade. Os convites também foram feitos para a negação. Dizer sim e não fazem parte da vida. Tomarei como exemplo um fato engraçado que sempre me perturba nos aeroportos. Aquelas esteiras por onde deslizam as malas é para mim um cenário convidativo para dançar. Hipnotizo-me ao observar seus movimentos, suas articulações e a imaginar nossas trocas caso eu pudesse dançar sobre ela. A esteira me convida a todo tempo, mas tenho que lhe negar o prazer da dança em respeito a uma regra superior a nós dois. Caso eu assumisse o crime e me deleitasse o quanto pudesse com esta partner, seríamos observados por várias outras pessoas que fariam seus juízos positivos e negativos até que o funcionário do aeroporto me detivesse. Assim que se faz o jogo cênico do Projeto Euphorico.
A pesquisadora Cleide Fernandes Martins, em um artigo para o Projeto Húmus, apresenta-nos uma interessantíssima regra sistêmica para organização do trabalho em dança. Ela parte da teoria de Mário Bunge, filósofo argentino, em que:

S = C, A ,R
(S) = sistema; (C) = coisa; (A) = ambiente e (R) = relações.
C ∩ A = Ø
(C interseção com A é igual a Conjunto vazio)
C Î A
(C pertence a A, A é o ambiente de C)
C ≠ A
(C é diferente de A)
(R) é o fator modificador de C e A.

A partir, Cleide propõe um sistema de dança (D), em que:
D = M, C, R
(D) = dança; (M) = movimento; (C) = corpo; (R) = relações.
M ∩ C = Ø
(M interseção com C é igual a Conjunto vazio)
M Î C
(M pertence a C, C é o ambiente de M)
M ≠ C
(M é diferente C)
(R) é o fator modificador de M e C.

Eu proponho um sistema Euphorico (E) em que:
E = ?, C, R
(E) = Euphorico, (?) incógnita; (C) corpo; (R) = relações.
(?) poderia ser igual a (D) sendo:
D1dança; D2dúvida; D3diferença; D4desconhecimento.
(?) poderia ser igual a (A) sendo:
A1amor A2arte A3alternativa A4alerta
? ∩ C = Ø
(? interseção com C é igual a conjunto vazio)
? Î C
(? pertence a C, C é o ambiente de ?)
? ≠ C
(? é diferente de C)
(R) é o fator modificador de C e A.



Assim, fica bem interessante levar o Euphorico para as escolas, onde ciências como matemática, sociologia, biologia e tantas outras matérias podem se articular com o corpo, com a dança e com a arte em geral. A principal mola do conhecimento é a dúvida, e este parece até então ser o mote dos nossos encontros e dançamos uma eterna escuta e uma eterna dúvida sobre o que nos move a dançar em conjunto. Quando proponho este texto, busco suprir uma necessidade pessoal de adquirir conhecimento teórico sobre minhas ações e poder enriquecer minha apreensão do mundo de maneira mais consciente. Admiro e gosto da catarse quando se domina certa técnica de deslizar sobre as relações entre o corpo e o meio. As fórmulas parecem fechar, enquadrar o processo, mas pelo contrário, ela desperta no corpo, sobretudo no corpo da criança as ligações entre o físico e o mental. Só podemos quebrar os limites por nós criados e é assim que vivemos a improvisação, construindo coisas para serem desconstruídas. E seguimos em grupo tendo a certeza de que o todo é maior do que as partes, pois se A pertence a B, B é maior que A. Seguimos com o desejo de ampliar a cada dia o raio de abrangência do projeto para que mais e mais pessoas possam desfrutar dos conhecimentos teóricos e práticos sobre o seu corpo, o corpo do outro e suas interações com o meio.
A partir deste ponto, sinto-me menos ingênuo perante minhas inquietações sobre a realidade dos fatos que não é simples como nos parece aos cinco sentidos. Espero que estas reflexões venham a contribuir com o prazer de todos os leitores em manter acesa a chama do conhecimento.

Por Clênio Magalhães



REFERENCIAS:

Google - 2010
Wikipédia - 2010
PEASE -Desvendando os Segredos da Ling. Corporal - 2005
RATEY – SPARK - 2008
NIETZSCHE – Assim Falou Zaratustra - 2003
INCONSCIENTE – ALETHÉIA - 2001
NORA - Húmus 2 - 2007
Amigos - 2010



Até a próxima!

2 comentários:

clenio disse...

Ambiente de projeções!

Tati Tassis disse...

E quantas projeções tenho vivenciado lendo os seus textos...
Amoooo!!!